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sábado, 19 de janeiro de 2019

Poema


"Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta.
De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas,
a gente se sente no balanço de uma rede que dança
gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda.
Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça.
Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com
algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher.
O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem
de verdade, mas que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho
de mar quando a água é quente e o céu é azul.
Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que
alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente
chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo.
Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem
não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser abril, mas parece
manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e
encontrava o presente do Papai Noel...

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu
no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra.
Ao lado delas, a gente não acha que o Amor é possível,
a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando
um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos.
Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos
os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque
suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa.
Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto
que o silêncio canta. De passeio no jardim.
Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade
é um perfume que vem de dentro e que a atração
que realmente nos move não passa só pelo corpo.
Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar.
Ao lado delas, a gente lembra que no instante em
que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado.
E a gente ri grande que nem menino arteiro.

Costumo dizer que algumas Almas são Perfumadas,
porque acredito que os sentimentos também têm cheiro
e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia.
Minha avó era alguém assim. Ela perfumou muitas vidas
com sua luz e suas cores. A minha, foi uma delas.
E o perfume era tão gostoso, tão branco, tão delicado, que
ela mudou de frasco, mas ele continua vivo no coração de
tudo o que ela amou. E tudo o que eu Amar vai encontrar,
de alguma forma, os vestígios desse perfume de Deus, que,
numa temporada, se vestiu de Edith (Avó/Avô), para me falar de Amor..."

*Ana Jácomo*

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Não se cuidar é uma forma de agressão



Há muitas maneiras de cuidar de si mesmo, já que todos os comportamentos com os quais mostramos amor, respeito e dedicação estão envolvidos. Quando deixamos de cuidar, estamos tirando valor, subtraindo importância às nossas necessidades e, de alguma forma, estamos nos atacando através da nossa atitude.

Muitos de nós adotamos um papel de cuidador, acreditando que há pessoas que precisam de nossos cuidados, e nós os colocamos antes dos nossos. Pensamos que temos força suficiente para atender a outros antes de nós mesmos. Isso, como veremos ao longo deste artigo, é um grave erro.

“Não é uma questão de passar o cuidado dos outros para o primeiro plano, colocando-os no cuidado de si mesmos; o autocuidado é eticamente o primeiro, na medida em que a relação a si mesmo é ontologicamente a primeira”.
-Michel Foucault-

O cuidado é uma responsabilidade com nós mesmos, para atender a nossa vida física, bem como espiritual, psicológica ou emocional, porque formamos um conjunto e a globalidade de aspectos a serem considerados e é importante não negligenciar nenhum deles.


Compreenda o que significa cuidar de si mesmo

Tente por um momento pensar sobre isso: o que é para você cuidar de si mesmo? O que você está fazendo para cuidar de si mesmo? A nossa forma de cuidar de nós conta muito sobre o que somos agora, pois está intimamente relacionado ao nosso estado de espírito e à nossa autopercepção.

Tomar cuidado significa levar em conta, ouvir nossas próprias necessidades e entender que temos o direito de nos sentir bem. É entender e reconhecer a nossa existência, sabendo que merecemos nosso amor e nossa compaixão além dos julgamentos e punições que impomos.

Estamos cuidando de nós mesmos quando evitamos o que nos causa desconforto: quando nos afastamos de certas pessoas que nos prejudicam, quando colocamos limites aos outros sobre o que queremos e não queremos fazer, e quando nos damos a oportunidade de Tomar decisões por nós mesmos, dando prioridade ao nosso bem-estar

“Não cuidar é uma forma sutil ou auto evidente de auto dano. Às vezes, como em um estado depressivo, a pessoa é tão sem energia para isso; Em outros problemas, o sujeito inverte sua energia contra si mesmo, aumentando a culpa e a autodepreciarão”
-Fina Sanz-


Quando eu paro de cuidar de mim mesmo eu estou me atacando

Ser descuidado e negligenciar-se é uma maneira de nos atacar e nos subestimar. Nossa própria autoestima é afetada quando negligenciamos, porque não estamos cuidando aspectos básicos para o nosso crescimento e aprendizado. Além disso, é bom prestar especial atenção a ele, uma vez que esta forma de agressão é muito sutil e, ao mesmo tempo, prejudicial.

Assim como quando deixamos de regar uma planta, impedindo-a de viver e crescer de forma saudável, também precisamos nos nutrir e atender às necessidades que são a fonte de nossa energia. Desta forma, nos damos a oportunidade de desenvolver e explorar a nossa felicidade.

“Nutrir-se de uma maneira que o ajuda a florescer na direção que você quer é um objetivo possível para alcançar, e você merece esse esforço”.
-Deborah Day-

Somos responsáveis por gerar emoções e sentimentos agradáveis em nossas vidas. Temos a capacidade de tornar nossa felicidade florescer e tornar a nossa existência mais significativa ao compartilhar nosso amor. Passar o tempo tem que ser uma das nossas prioridades para aprender a cuidar de nós mesmos. Como resultado disso, e se o fizermos bem, podemos cuidar melhor dos outros.


Um egoísmo sutil ao negligenciar nossas necessidades

Contrariamente ao que muitas pessoas acreditam, o egoísmo realmente aparece quando somos desconsiderados, quando nos consideramos mais aos outros que a nós mesmos. Longe de ser um gesto altruísta e gentil, é um descuido que nos impede de ouvir e compartilhar o que somos.

Não podemos dar nada que não possamos, e se não temos nosso amor, respeito e compreensão, dificilmente podemos oferecê-lo aos outros. Sem estar cientes, acabamos implorando pelo que não nos damos. Nós nos voltamos para que outros não atendam ao que realmente precisam, mas tentam encontrar sentimentos positivos que não encontramos em nós.

Aqueles de nós, salvadores e cuidadores da vida, desconhecem muito nosso egoísmo, porque acreditamos que estamos no lado oposto do desapego, da generosidade, do altruísmo e da bondade. Mas, para chegar a este ponto, o primeiro passo é escutar a si mesmo, escutar a si mesmo e se amar, mas tudo o que oferecemos será contaminado pela nossa falta de amor próprio.

“A minha própria pessoa deve ser um objeto do meu amor, assim como outra pessoa. A afirmação da vida, da felicidade, do crescimento e da liberdade de alguém está enraizada na capacidade de amar, isto é, no cuidado, no respeito, na responsabilidade e no conhecimento. O indivíduo é capaz de amar de forma produtiva, ele também se ama, se você ama os outros, não pode amar nada”.
-Erich Fromm-

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A triste geração que tudo idealiza e nada realiza



Demorei sete anos (desde que saí da casa dos meus pais) para ler o saquinho do arroz que diz quanto tempo ele deve ficar na panela. Comi muito arroz duro fingindo estar “al dente”, muito arroz empapado dizendo que “foi de propósito”. Na minha panela esteve por todos esses anos a prova de que somos uma geração que compartilha sem ler, defende sem conhecer, idolatra sem porquê. Sou da geração que sabe o que fazer, mas erra por preguiça de ler o manual de instruções ou simplesmente não faz.

Sabemos como tornar o mundo mais justo, o planeta mais sustentável, as mulheres mais representativas, o corpo mais saudável. Fazemos cada vez menos política na vida (e mais no Facebook), lotamos a internet de selfies em academias e esquecemos de comentar que na última festa todos os nossos amigos tomaram bala para curtir mais a noite. Ao contrário do que defendemos compartilhando o post da cerveja artesanal do momento, bebemos mais e bebemos pior.

Entendemos que as BICICLETAS podem salvar o mundo da poluição e a nossa rotina do estresse. Mas vamos de carro ao trabalho porque sua, porque chove, porque sim. Vimos todos os vídeos que mostram que os fast-foods acabam com a nossa saúde – dizem até que tem minhoca na receita de uns. E mesmo assim lotamos as filas do drive-thru porque temos preguiça de ir até a esquina comprar pão. Somos a geração que tem preguiça até de tirar a margarina da geladeira.

Preferimos escrever no computador, mesmo com a letra que lembra a velha Olivetti, porque aqui é fácil de apagar. Somos uma geração que erra sem medo porque conta com a tecla apagar, com o botão excluir. Postar é tão fácil (e apagar também) que opinamos sobre tudo sem o peso de gastar papel, borracha, tinta ou credibilidade.

Somos aqueles que acham que empreender é simples, que todo mundo pode viver do que ama fazer. Acreditamos que o sucesso é fruto das ideias, não do suor. Somos craques em planejamento Canvas e medíocres em perder uma noite de sono trabalhando para realizar.

Acreditamos piamente na co-criação, no crowdfunding e no CouchSurfing. Sabemos que existe gente bem intencionada querendo nos ajudar a crescer no mundo todo, mas ignoramos os conselhos dos nossos pais, fechamos a janela do carro na cara do mendigo e nunca oferecemos o nosso sofá que compramos pela internet para os filhos dos nossos amigos pularem.

Nos dedicamos a escrever declarações de amor públicas para amigos no seu aniversário que nem lembraríamos não fosse o aviso da rede social. Não nos ligamos mais, não nos vemos mais, não nos abraçamos mais. Não conhecemos mais a casa um do outro, o colo um do outro, temos vergonha de chorar.

Somos a geração que se mostra feliz no Instagram e soma pageviews em sites sobre as frustrações e expectativas de não saber lidar com o tempo, de não ter certeza sobre nada. Somos aqueles que escondem os aplicativos de meditação numa pasta do celular porque o chefe quer mesmo é saber de produtividade.

Sou de uma geração cheia de ideais e de ideias que vai deixar para o mundo o plano perfeito de como ele deve funcionar. Mas não vai ter feito muita coisa porque estava com fome e não sabia como fazer arroz.

Texto de Marina Melz

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

“Sou do tamanho do que vejo”, por Fernando Pessoa


“Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento”, aquelas frases simples de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno tamanho de sua aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a cidade…

“Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.”

Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.

“Sou do tamanho do que vejo!” Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. “Sou do tamanho do que vejo!” Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se refletem nele e, assim, em certo modo, ali estão.

E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objetiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. “Sou do tamanho do que vejo!” E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte. Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvageria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.

Mas recolho-me e abrando-me. “Sou do tamanho do que vejo!” E a frase fica sendo-me a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer.

Do “Livro do Desassossego”


Sobre o Autor:
Fernando Pessoa foi um dos mais importantes escritores e poetas do modernismo em Portugal. Nasceu em 13 de junho de 1888 na cidade de Lisboa (Portugal) e morreu, na mesma cidade, em 30 de novembro de 1935. É mundialmente conhecido como poeta dos heterônimos.