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quinta-feira, 5 de julho de 2018

Depressão é aquela sensação de que nada ao seu redor tem graça


Texto de Thamilly Rozendo



Depressão: para muitos, frescura. Para outros: falta de fé. Para alguns, preguiça. E por aí segue a linha de rotulações e definições que mais jogam esse alguém no fundo do poço do que propriamente ajudam.

Infelizmente vivemos em uma sociedade que não compreende a depressão. Eu, há alguns anos, convivi com esse monstrinho que deixa o nosso mundo tão sem cor, sem vida e sem sentido.

Levantar pela manhã era um peso. Amanhecer e perceber que você terá que enfrentar o dia, quando tudo está tão vazio e triste dentro de você, é uma batalha. Para alguns isso é “falta de gratidão pela vida”. E sabe? eu por muito tempo me culpei. Achava que eu estava desperdiçando o dom da vida e como isso me deixava ainda pior! Mas, depois de um tempo compreendi que a dor me incapacitava; não a dor física, mas a dor da alma.

Fazer as refeições também eram difíceis: Algumas vezes eu comia loucamente, outras não conseguia comer nada. Ter que conviver com as pessoas me desgastava muito. Eu me sentia incomodada em todos os lugares que ia, não via o tempo passar e tudo, literalmente tudo, era sem graça.

E novamente eu voltava para casa me achando um problema. Depois de algum tempo eu parei de sorrir e vestir uma máscara. Não era lá tão sociável e fui taxada de “chata”. Mal sabiam aquelas pessoas o quanto eu precisava ser forte para estar ali entre tanta gente.

Eu me sentia sozinha, mesmo na multidão. Eu não sentia que tinha espaço em lugar algum e na vida de ninguém. E então chegava a noite e dormir se tornou o meu refúgio. Assim, o tempo passava mais depressa e quem sabe amanhã essa dor já não passou? Mas, então, vinha a madrugada e, com ela, acordar com o peito angustiado. E novamente eu caía em lágrimas.

Sabe, ninguém, NINGUÉM quer se sentir assim. Ninguém gosta de sentir tanta tristeza ao ponto de se sentir impotente. Ninguém gosta de não ver graça na vida, nas coisas, nos amigos e nos lugares. Ninguém gosta de sentir que carrega um peso nas costas sempre que sai de casa. De se olhar no espelho e não contemplar a sua beleza. De não sentir vontade de se cuidar, de se amar e só querer dormir para o tempo passar rápido e assim não sentir mais tanta dor, tanto choro, tanta angústia.

Eu lutei. Não foi fácil. Precisei reconhecer que eu necessitava de ajuda e que aquele dragão – a depressão – só ia me devorar aos poucos. Não foi do dia para a noite, mas aos poucos fui me reencontrando. Hoje entendo que tudo bem você ficar triste. Tudo bem você chorar e sentir. Dias ruins acontecem, problemas existem, mas há sim beleza na vida. Descobri que as coisas simples são as mais extraordinárias!

Isso não é um texto de superação. É um texto de desabafo e de reflexão. Muita gente precisa, sim, de ajuda e não sabe para onde correr. A incompreensão das pessoas faz com que muita gente esconda o que sente, por medo de julgamentos. Quem dera se todas as pessoas que convivem com esse monstrinho, diariamente se libertassem dessa tal de “frescura”, quem dera fosse tão simples como um resfriado em que a gente toma um chazinho e logo passa.

AJUDA NÃO é julgar isso como falta de religiosidade, de fé, ou qualquer coisa do tipo. AJUDA é orientar a buscar ajuda, é apoiar, ouvir, compreender.

Empatia resolve muita coisa. Às vezes, tudo que esse alguém precisa é de um espaço pra poder falar, botar para fora o que sente, sem ninguém julgar ser mais ou menos. Então, ouça e ame. Sem julgamentos.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Artesão xanxerense representará Santa Catarina em feira nacional


O xanxerense Richard D´Ávila trabalha com cutelaria, profissionalmente, há quatro anos, mas desde a adolescência mostra habilidades ao forjar lâminas e as facas. O artesão vende os materiais que produz para todo o Brasil e, no ultimo mês, foi um dos sete catarinenses escolhidos para representar o Estado na 19º Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenearte), que acontece entre de 4 a 15 de julho no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda (PE).


Esta é a primeira vez que Richard vai expor seu trabalho em uma feira nacional. Segundo ele, o reconhecimento de ser selecionado para participar desse evento é muito importante para mostrar, incentivar e valorizar o trabalho que realiza.

- Para mim é uma grande satisfação poder representar o Estado nesta feira. Levando em conta a brevidade do reconhecimento do meu trabalho, isso tem uma grande importância para o desenvolvimento da minha atividade – comenta o artesão.

A seleção estadual aconteceu em maio, por meio de processo de seletivo criado pela Secretaria de Estado da Assistência Social, Trabalho e Habitação (SST), por intermédio da Coordenação Estadual do Artesanato de Santa Catarina. Os critérios avaliados foram: Referência à cultura popular, criatividade, linguagem própria, tradição, expressão contemporânea, inovação, consciência ambiental, apresentação e produto associado à cultura local.
  
Fonte: Tudo sobre Xanxerê, 06/06/2018.

Um gol de placa contra a ditadura em Copa do Mundo


Por Urariano Mota*
29/06/2018



As relações tortas entre Copa do Mundo e ditadores não foram exclusivas do Brasil. Da América Latina à Europa a utilização política do futebol foi a regra. Mas há pelo menos um caso que reúne coragem e brilho em um gol lindo, maior que o de todos atletas juntos até hoje. Recupero um texto sobre o tento do gênio a seguir.

Entre as imagens que nos vêm a partir do 11 de setembro de 1973, do dia em que houve o golpe militar contra Salvador Allende, entre tantas imagens vivas, uma poderia ser, com razão, a do presidente Allende resistindo de capacete em ultimo recurso, com alguns fiéis militantes às portas do palácio La Moneda. A imagem de Allende fala de um socialista democrata, que pela força das urnas julgava ter o poder, que é destruído ao fim, derrotado com a eloquência de bombas, tiros e crimes.

Outra imagem do golpe chileno poderia ser também a que correu mundo, dos livros sendo queimados por soldados do exército nas ruas do Chile. Em um país de grandes poetas e tradição humanista, essa foto escapou do paradoxo, porque ela se fez coerente com o assassinato do poeta Pablo Neruda pela ditadura. E depois, essa imagem dos livros no fogo é tão simples e pornográfica, ao mesmo tempo de tamanho didatismo sobre a ideologia fascista no seu carbono Pinochet, que um comentário passaria pelo já visto, ao lembrar e repetir ações de Hitler a Franco, todos ótimos queimadores de escritores, livros e inteligência.

Então falo rápido sobre uma imagem e personagem que marcam também. Não são muito divulgados no Brasil um gesto, a pessoa e o valor de Carlos Caszely. Ele foi um craque do futebol chileno. A wikipédia informa que Carlos Caszely é o jogador mais popular e querido da história do Colo-Colo e do Chile. Até hoje é chamado de El Chino, El Rey del Metro Cuadrado, ou de El Gerente. Mas o seu maior feito é este: astro da seleção de futebol do Chile, em cerimônia oficial dentro do palácio, no vigor de mortes e fuzilamentos de opositores, Carlos Caszely se negou a apertar a mão do ditador Augusto Pinochet.

Ou como ele próprio falou desse momento raro e belo, anos depois:

“Eu ouvi passos. Foi pavoroso. De repente as portas se abriram. Apareceu uma figura vestindo uma capa, de óculos escuros e quepe. Tinha uma cara amarga, suja, dura. Ele foi cumprimentar cada um dos jogadores qualificados para a Copa. Quando ele se aproximou, eu botei minhas mãos atrás das costas. Ele estendeu sua mão, mas me recusei a apertar. Como ser humano aquela era minha obrigação. Tinha todo um povo sofrendo nas minhas costas”. Mas que coisa.

As razões do gesto, desse heroísmo, são anteriores. Não foi um impulso louco. Bem antes, o jogador havia sido ligado ao ex-presidente Salvador Allende. O craque era socialista como o presidente morto. Depois do golpe, Caszely se transferiu para o futebol espanhol. E o que fez a canalha do regime no Chile? Perto da Copa de 1974, os militares sequestraram, prenderam e torturaram a mãe do jogador. Supõe-se que isso foi uma tentativa de calar Caszely e obrigá-lo a jogar pela seleção chilena. Entre os perseguidos da ditadura, ele era o principal jogador do futebol chileno, estrela do Colo-Colo e da seleção. E Caszely achou o ato de tortura contra a mãe tão estúpido, que declarou recentemente:

“Ainda hoje não está claro por que fizeram aquilo. Eles a prenderam e torturaram selvagemente, e até hoje não sabemos de que ela era acusada. Recordo um país triste, calado, silencioso, sem risos. Uma nação que entrava nas trevas. Eu sabia o que viria de cima. Eu tinha medo. Não por mim, mas por meus amigos e por minha família. Eu sabia que eles estavam em perigo por minhas ideias”.

Então sua mãe foi presa, torturada e solta, sem qualquer acusação. E pouco depois o jogador se encontra cara a cara com o ditador, na despedida para a Copa de 1974 da Alemanha. Então ele põe as mãos para trás, enquanto Pinochet se aproxima a cumprimentar um a um. Ele foi o único a rejeitar o ditador.

Enquanto escrevo, ao lembrar esse ato, sinto um cheiro de perfume, daqueles inesquecíveis, cujo cheiro e composição química vêm apenas da lembrança que cerca um gesto. Naquele maldito e mágico ano de 1973, quando o mundo conhecido vinha abaixo no momento exato em que grandes eram as esperanças, houve esse gesto de Caszely tão pouco ou nada divulgado. Eu soube dele há pouco tempo. Mas que coragem, podíamos dizer. E aqui, se espaço houvesse, deveríamos discutir o quanto estão errados os que julgam ser a coragem um atributo de valentões, de homens que zombam do perigo. Não é. A coragem é a fidelidade ao sentimento de honra, dever ou amor. Por isso dizemos: que coragem!, isto é, que afeto e grandeza em ser fiel ao mais íntimo. Sentimos naqueles braços para trás de Caszely, enquanto avançava contra ele o ditador, um bravo bravíssimo. Com certeza, o jogador tremia, mas não podia ainda assim ceder à mão de Pinochet no cumprimento.

Não sei, mas esse me parece ter sido o maior gol de placa da história.

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Vídeo "Aprender a aprender"


O vídeo mais belo e sensível sobre a "arte" de ensinar com amor.

Leitura - Kafka


Em 03 de Julho de 1883, nasce o escritor checo Franz Kafka. Judeu nascido em Praga, ele não teve nenhum de seus romances publicados enquanto vivo. Kafka é autor de livros como "O Processo" a "A Metamorfose", que descrevem a ansiedade do homem que vive em um mundo indiferente, incompreensível e hostil. 

Abaixo segue um texto do autor de outra obra não muito conhecida. O livro é na verdade a publicação póstuma de uma carta que Kafka escreveu para seu pai e que nunca chegou a ser enviada.

A Preocupação do Pai de Família

Há quem diga que a palavra Odradek é de origem eslava, e procura-se então, com base nisso, demonstrar a formação da palavra. Outros, porém, acham que ela vem do alemão, e que o elemento eslavo é apenas uma influência. Mas é evidente que a insegurança das suas explicações nos permite concluir que nenhuma delas é correta, até porque nenhuma permite encontrar o sentido da palavra.

Naturalmente que ninguém ia perder o seu tempo com tais estudos, se não existisse realmente um ser com o nome de Odradek. À primeira vista, parece uma bobina de fio, chato e em forma de estrela, e de facto há uma espécie de fios que o cobrem; certamente pedaços de fios de vários tipos e cores, esgarçados, velhos, atados e também todos enleados uns nos outros. Mas não se trata apenas de uma bobina, porque do meio da estrela sai um pauzinho transversal, ao qual se junta outro, em ângulo reto. Com a ajuda deste último pauzinho e de uma das pontas da estrela, a coisa é capaz de se por em pé, como se tivesse duas pernas.

Seria natural pensar-se que esta figura terá sido em tempos uma qualquer forma funcional, e que agora está apenas partida. Mas esta hipótese não parece ter muito fundamento, pelo menos, não há sinais disso; não existem zonas quebradas ou com eventuais membros a nascer, que nos pudessem confirmar tal hipótese; a coisa parece não ter finalidade no seu conjunto, mas ser, à sua maneira, completa. Mas, de facto, não é possível dizer nada de mais concreto, visto que Odradek é extraordinariamente ágil e ninguém consegue apanhá-lo.

Anda pelo sótão ou pelas escadas, pelos corredores, no vestíbulo. Por vezes passam-se meses sem que ninguém o veja; provavelmente mudou-se para outras casas; mas acaba infalivelmente por voltar à nossa casa. Às vezes, quando saímos e ele, por acaso, está encostado ao corrimão aos pés da escada, bem gostaríamos de lhe dirigir a palavra. É claro que não lhe fazemos perguntas difíceis, mas tratamo-lo – até pelo seu tamanho minúsculo – como a uma criança. “Como é que te chamas?”, perguntamos-lhe. “Odradek”, responde ele. “E onde é que moras?” “Domicílio incerto”, diz, rindo; mas é apenas um riso como de alguém que não tivesse pulmões. Ouve-se como o restolhar das folhas caídas. E com isto geralmente a conversa chega ao fim. Aliás, até estas respostas nem sempre veem; muitas vezes fica durante muito tempo calado, como a madeira de que parece ser feito.

É em vão que pergunto a mim mesmo qual será o seu destino. Será que pode morrer? Tudo o que morre teve antes qualquer espécie de objetivo, qualquer forma de atividade e com isso se foi desgastando; mas isto não se aplica a Odradek. Será que ele um dia ainda vai rebolar escadas abaixo com aqueles fios atrás de si, até aos pés dos meus filhos e netos? É óbvio que não faz mal a ninguém; mas a simples ideia de que ele possa sobreviver-me é para mim quase dolorosa.

Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos